Enquanto agricultores lidam com as oscilações dos custos de produção, as cooperativas adotam estratégias visando otimizar recursos, aumentar a eficiência – da propriedade rural até a comercialização dos produtos – e, claro, reduzir custos.
“A natureza da cooperativa prevê benefícios mútuos entre os cooperados. Mas ela é um meio de desenvolvimento e só vai bem quando todos vão bem, cresce à medida que todos os cooperados crescem”, analisa o professor Alex Ferraresi, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Gestão de Cooperativas e Organizações Complexas e Plurais da PUCPR.
Ele destaca que o modelo de integração adotado por cooperativas do setor permite aos produtores rurais unirem forças para superar desafios e alcançar melhores resultados: “a cooperativa consegue agregar valor em ações como a compra de insumos a preços mais competitivos e aquisição de equipamentos que os cooperados, individualmente, não conseguiriam”.
Além disso, o professor elenca a oferta de assistência técnica, orientação para gestão da propriedade com foco na eficiência incluindo tecnologias para melhoria de produtividade, acesso mais facilitado a crédito rural e linhas de financiamento, assim como a garantia de compra da produção por um preço previamente acordado. “O produtor tem certa tranquilidade com essa previsibilidade”, acrescenta.
Cooperado
Para os produtores, o modelo compensa, mas ainda traz dificuldades. O produtor cooperado Jaime de Souza Pereira, que atua com avicultura e agricultura em Cafelândia, no Oeste do Paraná, avalia o sistema integrado da cooperativa de maneira positiva. “Quando uma parte da integração está com mais dificuldade, tem a outra com mais facilidade. No frigir dos ovos, o resultado pode ser bom”, afirma.
O sistema de integração acaba padronizando o valor da ração – apontado pela Embrapa Suínos e Aves como o principal componente da alta do custo de produção de frango. Dessa maneira, o cenário é diferente no caso do criador independente. “A avicultura é uma atividade complexa. Como produtor independente não daria para fazer os investimentos que fizemos, tem que ser integração. Até a comercialização de maneira isolada é difícil”, considera Jaime.
Na propriedade dele estão instalados quatro aviários, sendo um administrado por ele e os demais pelo filho e neto. Somente no aviário de Jaime são 35 mil aves, no total giram em torno de 140 mil frangos no local.
O produtor destaca que, apesar do suporte da cooperativa, que inclui a entrega dos pintainhos, ração, medicamentos quando necessário, assistência técnica e veterinária, assim como a venda garantida dos lotes de frango, há outros custos necessários para manter a qualidade da produção que ficam por conta dele e acabam pesando no orçamento.
“Ganhamos pelo rendimento do lote, então temos que caprichar na estrutura e na operação para chegar aos melhores resultados”, explica. Segundo Jaime, isso abrange a avaliação periódica de aspectos como índice de mortalidade e eficácia da conversão alimentar, além de ambiência, ou seja, condições das instalações, garantia de fornecimento de água e energia elétrica, entre outros.
Ele conta que para manter a eficácia na geração de água, por exemplo, implantou dois poços artesianos na propriedade, assim como um gerador próprio de energia. “É uma atividade muito exigente e que precisa ser bem planejada”, afirma. Frente a isso, o avicultor acredita que investe muito para obter uma rentabilidade pequena: “seria bom se tivéssemos uma remuneração um pouco melhor”.
O avicultor cooperado Marcelo Morília Telles, de Palotina, também no Oeste paranaense, também avalia que atuar como produtor independente no setor, atualmente, seria complicado. Porém, ser integrado a uma cooperativa, para ele, representa arcar com despesas que geram um custo alto de produção.
Marcelo aponta gastos com a parte operacional do negócio, como energia elétrica, óleo diesel, maquinário e mão de obra, na propriedade que inclui quatro aviários com 33 mil aves, com 12 exaustores ligados durante 24 horas, além de piscicultura. Atualmente, afirma ter colocado o pé no freio para novos investimentos: “não faço e não recomendo, no momento está muito arriscado”, citando as taxas de juros como o principal empecilho.
Cooperativas
Já para as cooperativas, o modelo tem desafios – ligados ao setor como um todo -, mas os resultados têm sido satisfatórios. Na Copacol, o cooperado recebe por índice de produtividade, explica Irineu Peron, superintendente de produção da cooperativa.
“Em nosso modelo de parceria na integração, o produtor tem algumas responsabilidades e a cooperativa tem outras”, enfatiza. E completa: “a cooperativa acaba amortizando os custos de produção e o produtor se especializa na atividade”.
Irineu comenta que o produtor não será impactado diretamente com a alta da soja e do milho, por exemplo, que afetam o custo da ração. Porém, quando isso acontece, no fim do ciclo o resultado financeiro da integradora será menor. “Muitas vezes esse tipo de aumento gera um impacto importante, mas que é neutralizado para o produtor no momento de receber pela atividade”, reforça, tendo em vista que o preço pago ao produtor é definido anteriormente.
Dados do relatório anual da Copacol apontam um faturamento de R$ 10,6 bilhões em 2024, com pagamento da maior sobra da história da cooperativa: R$ 270 milhões, 64% de acréscimo na comparação com o exercício anterior. O próprio documento indica que o recurso dá a possibilidade de o cooperado investir na sua atividade e proporcionar melhorias na propriedade.
Segundo Fernando Varollo, coordenador de Avicultura da Cooperativa C. Vale, há um trabalho direcionado à aquisição de insumos nacionais, o que ajuda a manter os preços com menor impacto. Ele também aponta que o modelo de integração da cooperativa possibilita um sistema sustentável, em que o agricultor produz a semente e o grão, que será transformado em ração para o setor de proteína animal. “O modelo permite que cada grupo consiga fazer parte do negócio, conseguindo assim melhores resultados”, observa.
Ele ressalta que a variação dos componentes da ração, por exemplo, não impacta a atividade do produtor no campo e destaca a comercialização como uma das principais vantagens. “O produtor independente precisa enfrentar um grande índice de inadimplência de compradores. Já o cooperativismo garante estabilidade ao produtor, propiciando condições dele obter melhores resultados e de investir na propriedade”, reforça.
Segundo dados da C. Vale, o faturamento da cooperativa em 2024 foi 10% menor do que o ano anterior, ficando em R$ 21,98 bilhões, mas as sobras cresceram 25%, com R$ 150 milhões à disposição dos associados.
Fonte: Globo Rural